Terça-feira, 29 de Abril de 2008

17

Na rua, Alice caminha sem se aperceber que alguém a segue. Ao virar a esquina, baixa-se e tira um cigarros do pacote, que leva escondido numa das suas meias. Acende o cigarro, dá umas bafuradas e continua o seu caminho. Vai pensando na decisão que tomou, a de nunca mais voltar àquela casa. Não lhe custaria tanto se Joana não lhe lembrasse tanto o seu irmão: a mesma ingénua sinceridade, a mesma capacidade para inventar mundos fantásticos e acima de tudo, a mesma capacidade para a levar para esses mundos. Mundos esses onde não há preocupações, não há gritos, não há angústias, onde Alice pode simplesmente ser criança.
Continua a andar lentamente, pois já sabe o que a espera e não tem pressa. Passa por várias pessoas que olham para ela, com um misto de pena e de receio. Aqueles olhares causam-lhe tristeza, mas também raiva. Raiva dos pensamentos que dão origem àqueles olhares. Naquela pequena vila, perdida no interior do Alentejo, todos conhecem a sua história. É apenas uma questão de tempo, até os mais recentes moradores ficarem também a par da mesma. Já não pode lá voltar. Já não aguenta mais perguntas, mais dúvidas, que vê na cara de Maria e principalmente de Madalena... Aquela Madalena...por que raio tem que ser tão curiosa?! Por causa dela tudo acabou mais cedo do que desejava. Que raiva! Amaldiçoa-a.
Perdida nos seus pensamentos, chega finalmente ao seu bairro. Um bairro de casas baixas e velhas, as mesmas características que têm a maior parte dos seus habitantes. Na sua maioria viúvas, que passam a maior parte, daqueles últimos dias de Verão, sentadas à porta das suas casas imaculadamente caíadas, as quais contrastam com as vestes negras das velhas. Alice dirige-se a uma velha em particular.

Alice
Olá tia. - diz, a Mariana

Mariana é uma mulher calejada pela vida. Magra com 70 e poucos anos, viúva, sem filhos ou familiares vivos. É vizinha de Alice e de certa forma adoptou-a.

Mariana
Então? Pensava que hoje vinhas mais tarde do teu passeio. - diz, enquanto recebe um beijo de Alice- Ó filha! Andaste a fumar?! - diz, ao sentir o cheiro a tabaco que sai da roupa de Alice.
Alice
Foi só um cigarrito. - diz a sorrir - Nada que me mate.

Mariana encolhe os ombros e levanta-se da sua cadeira.

Mariana
Anda. Tenho comida para ti. - diz, entrando na sua pequena casa. Alice segue-a.

Madalena tenta, o mais discretamente que pode, passar despercebida, mas no meio do bairro tal tarefa é impossível. Vendo todos os olhos apontados para si, decide mudar de estratégia.

Madalena
Bom dia. - diz, para um grupo de velhas que a vinham seguindo com o olhar, ainda estava Madalena a várias dezenas de metros delas.
Velhas
Bom dia. - respondem em uníssono.
Madalena
Podem-me dizer se é para aqui que mora uma rapariga chamada Alice?

As velhas olham umas para as outras, como se aquela pergunta não fosse novidade para elas.

Velha1
É da assistência social? - diz, com forte sotaque alentejano.

Madalena é apanhada de surpresa

Madalena
Bom....não...Quer dizer...Só queria saber onde ela vive.

Mais uma vez as velhas olham umas para as outras, sorrindo da resposta de Madalena

Velha2
Vocês não conseguem fazer nada da mocita. Quantas vezes vocês a levam, quantas vezes ela para cá volta!
Velha1
É verdade. Mas pelo menos sabem sempre onde a podem encontrar - diz, a rir
Velha3
Pensava que já tinham desistido. Já há muito que ela voltou e nunca mais cá veio ninguém saber dela.
Velha1
É verdade. Esta deve ser nova e mandaram-na para a testar- diz a rir.

Madalena sente-se confusa com a conversa.

Velha1
Ó menina, na fique assim. A gente só tá reinando consigo. - diz, vendo o ar confuso de Madalena, vira-se depois para as outras velhas- Amanhem aí uma cadêra p'á moça, qu'ela na parece muito bem
Velha3
Deve ser moça de cidade, com aquela mania de dietas. Nota-se qu'isso é fraqueza por falta de comida! Na volta tem daquelas cosas que falam na Televisão... a Anacomia.. ou lá o qué isso.
Velha1
Ó mulher, na digas baboseras! A moça parece que ficou assarampantada com a conversa. Sente-se lá, qu'isso já passa. - diz, ao mesmo tempo que dá uma cadeira a Madalena.

Madalena agradece a atenção e senta-se.
publicado por Luis às 22:48
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9 comentários:
De Anónimo a 30 de Abril de 2008 às 14:35
Ainda bem que a Madalena se sentou, porque a história da Alice não parece ser nada fácil...
Parabéns pela série! Consegue conjugar mistério e bom humor, numa escrita que nos prende.
Um pequeno reparo: no episódio 5, o telemóvel de brincar está no bolso de Alice, e não de Joana. De qualquer forma, cinco estrelas!
Continue a escrever, que os leitores esperam ansiosamente. É que a curiosidade aperta...
De xana a 30 de Abril de 2008 às 17:22
Ah, ah, ah, gostei dessa doença, a Anacomia... lol. Por aí, parece que se fala tão bem, quanto na minha terra... aqui diriam, coisas que se vêm na "tevisão"... entre outras pérolas do falar camponês.
De Carmo Santos a 2 de Maio de 2008 às 10:44
Fantástico, de repente parece que estou de volta ao meu Alentejo. Adorei.
De Violeta a 6 de Maio de 2008 às 03:28
Isto tá mesmo a ganhar forma, tá tá. Lentamente... cm parece q se quer no Alentejo. :D Epah, as personagens femininas têm é nomes mto parecidos. Possas! Maria, Madalena, Mariana... começo a ficar confusa!
De Luis a 14 de Maio de 2008 às 12:01
Já agora, a velha1 chama-se Margarida, a velha2 Marilia e a velha3 Marta :)
De Violeta a 15 de Maio de 2008 às 05:06
Ui, assim não consigo mm seguir, eu q sp fui péssima p saber os nomes das pessoas, com personagens então, medo! hehe!
De danitri.® a 10 de Maio de 2008 às 14:04
10 de Maio. Não é já altura de vir o 18º? :)
De isa a 11 de Maio de 2008 às 11:23
Então... aguardo o 18... bjs

isa
De Ana a 12 de Maio de 2008 às 13:55
Aguardo o número 18...

Boa série...

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Merecemos 200 chicotadas por termos pensado que não sabias o que fazer à história
Merecemos 500 chicotadas por pensarmos que a série acabava aqui
Temos que depositar largas quantias de dinheiro da tua conta para que nos possas perdoar
A ciática ainda chateia, e o trabalho também, pelo que vamos a ver quando sai o próximo.
Pois, mas eu penso que continuas sem saber o que vai sair daqui.
E estas interacções ainda continuam!?
  
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